sábado, 5 de maio de 2012

Livro do Desassossego

Li ontem, provavelmente tarde demais para o que agora desejo, um trecho do "Livro do Desassossego" que considero um dos mais sublimes até hoje escritos:
"A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para o que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite." Bernardo Soares     

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Tema e Motivo

Tema e motivo são conceitos que por vezes se confundem. Numa qualquer obra literária, o tema é o elemento central a partir do qual se desenvolve o texto e toda a estrutura. É a ideia global sobre a qual se constrói a obra literária. Assim, neste contexto, tema é sinónimo de assunto.
Podemos aqui identificar dois temas muito comuns à literatura e também a outras artes: a viagem e o amor. Ao longo de toda a história da literatura estes dois temas têm sido recorrentes, independentemente de fatores culturais, sociais, religiosos ou políticos. Esta universalidade dos temas não pode ser confundida com homogeneidade dado que os mesmos podem ser abordados sob os mais diversos pontos de vista e influências, resultando em incontáveis perceções sobre o assunto.
O motivo, como o próprio nome indica, é a razão pela qual surge determinada obra. Por outras palavras, o motivo será uma concretização mais objetiva de um tema, por exemplo, considerando o tema amor, um motivo pode ser o amor impossível. Considerando o tema viagem, um motivo pode ser a viagem interior.
Assim, o tema será sempre mais amplo e abstrato enquanto que o motivo será sempre mais concreto. O tema será algo de global ao passo que o motivo será uma parte mais definida do todo.
O mundo literário e das artes estão repletos de mitos. Mito e literatura têm a mesma origem. Os mitos surgiram da narração e a literatura, em muitos casos, é a passagem da narração a escrito.
Eurípedes e Sófocles escreveram sobre Hércules, um herói mitológico, não se sabendo ao certo se por detrás deste personagem estará ou não um homem real. Hércules, saído da mitologia grega, serviu de inspiração a numerosas representações artísticas, literárias, musicais, plásticas e dramáticas.
A título de exemplo de mito bíblico, refiro o mito da criação, que se encontra escrito na bíblia, mais concretamente no Génesis, onde Deus cria Adão, depois de ter ciado o universo, tendo depois criado a mulher a partir de uma costela de Adão.
No campo da literatura, Tristão e Isolda, é, na minha opinião, um dos melhores exemplos de mito. A história foi escrita por autores normandos no século XII, baseando-se em lendas dos povos celtas do noroeste europeu. Tristão e Isolda foram, ao longo dos séculos, ganhando várias vidas, influenciando a literatura quer na Idade Média quer no Renascimento. O mito de Tristão e Isolda foi também inspirador para a música, o teatro e o cinema.
Resta-nos o mito histórico. Para exemplificar este tipo de mito, apresento o mito do sebastianismo, a versão portuguesa do messianismo, sendo contudo de origem secular.
Portugal caiu numa crise sucessória com a morte do rei D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, tendo o trono português ficado nas mãos do rei de Espanha, Filipe II.
O povo nunca aceitou este domínio espanhol, surgindo daí a história de que D. Sebastião estaria ainda vivo, aguardando apenas o momento certo para voltar. A história transformou-se em lenda e a lenda em mito.
De certa forma, com D. Sebastião esfumou-se muito do que era Portugal. O sebastianismo entranhou-se de tal forma nos portugueses que durante estes séculos não houve ninguém que suprisse a falta do desejado. Ainda hoje se assiste à esperança portuguesa que algo surja como que por milagre para resolver os problemas que não queremos enfrentar.
Fernando Pessoa recuperou o sebastianismo na Mensagem e de forma mais objetiva em Regresso ao Sebastianismo, tentando motivar a nação a recuperar o seu patriotismo perdido, já num contexto completamente diferente do que fez surgir o mito. Já antes as trovas de Bandarra não deixaram que D. Sebastião morresse.
Mais recentemente, nos anos 60 do século passado, o mito chegou à música, através do Quarteto 1111 que no seu poema, curiosamente, cantava a morte de D. Sebastião, colocando, de certa forma, um ponto final no mito.
No cinema, foi Manoel de Oliveira, em Non ou a vã glória de mandar, que elevou D. Sebastião à categoria de grande guerreiro.
Também a pintura e a escultura deram alma ao sebastianismo, que para os portugueses, ainda que de forma inconsciente, é muito mais que um mito, como refere Eduardo Lourenço, no seu Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português.                      

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Conceito de Literatura

A dimensão do termo literatura encerra em si muitas dimensões, podendo significar um conjunto de escritos de um autor, de uma época, de um estilo, de um tema, de um país…         
A forma moderna do conceito de literatura surgiu no século XVIII, continuando a sua evolução até ao século XIX. Hoje, denominamos como literatura todas as obras escritas em todos os períodos históricos. Anteriormente ao século XVIII, literatura significava simplesmente texto escrito. Após essa época o conceito de literatura deixa de ter somente um aspeto quantitativo e passa a ter também um aspeto qualitativo, ou seja, deixa de referir-se apenas à gramática, à arte de ler e escrever, à instrução e à erudição.
Após o século XVIII, a literatura é entendida como arte, como uma representação do real, ou, também, uma transfiguração do real, criada pelo escritor, através da qual transmite aos leitores a sua visão e o seu sentido estético. Deixa aqui de ter a maior importância a forma para se dar a primazia ao conteúdo. Desta forma, a literatura assume-se como forma de intervenção no mundo, deixando apenas de o descrever. A visão da realidade de um escritor é criada por ele próprio não podendo se mensurável de forma científica, diferindo entre diferentes escritores.
Por alturas do século XVIII, a literatura e o estudo da literatura ganham uma dimensão diferente da que tinham tido até aí. Uma obra literária deixa de ser avaliada apenas pela sua gramática e pela sua poética, passando a ser também avaliada pelos seus conteúdos mais subjetivos, pela imagem da realidade que transmite, pela visão do seu autor.
Esta mudança não é alheia ao Iluminismo, sendo a razão desta transformação no conceito de literatura. Este movimento gerou uma vasta mudança na vida política, social e cultural na Europa. As transformações foram imensas, revelando-se também na literatura, tornando-a, como já referido mais interventiva e crítica do mundo.
Nesta fase generaliza-se também o ensino e a escrita, tornando os livros acessíveis a um maior número de pessoas. De igual modo gera-se a participação de um maior número de pessoas nos processos de tomada de decisões, ou, pelo menos, essas decisões são avaliadas de forma critica. Desta forma a visão da literatura altera-se, estando nesta fase os autores mais participativos e empenhados em transmitir a sua visão do mundo, tentando também modelá-lo.
A literatura ganha nesta fase diversas vidas uma vez que a visão que o autor pretende e pensa transmitir pode não ser a percecionada pelo leitor. Se o autor recria a realidade o leitor pode, também, a partir das palavras do autor, recriar uma outra realidade diferente da primeira. Do mesmo modo, uma obra literária pode assumir realidades diferentes ao longo do tempo, independentemente do autor e do tempo em que nasceu.

Assim, não bastará ao autor dominar a arte da escrita, deve igualmente ter uma forma sua de ver o mundo e vontade de comunicar. Desta forma a literatura é uma forma de arte, uma representação estética do mundo.

Viagem

O tema viagem é extremamente frequente na literatura ao longo dos tempos, transversal a todas as literaturas nacionais e de forma geral a todas as poéticas.
Pelos mais variados motivos, sempre existiram viagens. Fosse com objetivos mercantis, lúdicos, bélicos, religiosos, as viagens sempre existiram e sempre se refletiram na literatura.
A história de literatura está repleta de viajantes famosos: Gulliver, Cândido, D. Quixote, Marco Pólo, Ulisses, Sal e Dean, entre muitos outros.  
Existirão muitas obras literárias em que o tema principal anda em torno de viagens, sejam de cariz mais físico, sejam de cariz mais metafisico. A própria génese da literatura europeia, a Ilíada e a Odisseia, desenvolve-se em torno de viagens.
A viagem, em literatura, nem sempre tem subjacente uma deslocação de um local para outro, não é sempre um diário de bordo ou um caminho percorrido. Uma viagem pode ser um exame ao ser, pode ser uma redenção ou uma metamorfose, como em Kafka.
Uma viagem, do ponto de vista mais literal, em que um autor se desloca a um espaço que não é o seu, implica uma intrusão de ordem social e cultural. O viajante, ao encontrar uma realidade diferente da que é a sua, vai olhá-la com espirito crítico. Veja-se, por exemplo, a forma como Cândido olhou para Lisboa ou a forma como os vários personagens de A Ignorância, de Kundera, olham para a República Checa e para si mesmos. Estes diferentes olhares sobre um determinado tema ajudam a moldar a imagem global que se vai progressivamente construindo, fruto dos diferentes contributos.
A literatura em si mesma é também uma viagem. Dou aqui como exemplo O velho que lia romances de amor, que nos transporta através de uma narrativa quase fotográfica à selva amazónica.
Da análise do tema torna-se até possível traçar uma evolução histórica do que é uma viagem, distinguir conceitos que à partida poderiam confundir-se, como viagem, peregrinação e turismo. Esta análise resulta, naturalmente, de uma perspetiva comparatista da literatura.   
Resta concluir que no âmbito da literatura comparada, o tema viagem é um inesgotável filão de matéria-prima. Da mesma forma, outros temas seriam igualmente profícuos em possibilidades de análise.
“Desde o seu início, os estudos literários e as artes da interpretação têm sido comparativos” (STEINER:2003). Em minha opinião, o simples ato de ler, é, ainda que de forma inata, uma ato comparatista. Ao tentar definir o que se leu, por exemplo, tentaremos encontrar uma influência ou um sucedâneo que melhor enquadre o que pensamos de determinada obra.
Weltliteratur, designação inventada por Goethe, define maravilhosamente o que se pode designar por literatura global. As fronteiras dos países e das línguas esbatem-se e torna-se possível encontrar pontos de contacto entre realidades aparentemente distantes.
Deste conceito surgem as apreciações mais díspares sobre temas comuns. Por exemplo, Paris é retratada por inúmeros autores ao longo dos anos, cada um com a sua perspetiva mas todos contribuindo para uma imagem imaginária de uma cidade.
O comparativismo permite estudar a fundo as relações entre as diversas literaturas, as suas linguagens, o seus imaginários, a forma como cada uma trata um mesmo tema e, essencialmente, o que há de comum e de diverso entre cada uma.
Acima de tudo, o comparativismo permite que se estudem as diversas literaturas como uma só. Neste aspeto, o tema viagem, sendo recorrente e amplamente utilizado pelos mais diversos autores permite um aprofundamento que de outra forma seria difícil de alcançar.    

sábado, 3 de dezembro de 2011

Intemporalidade

Dois médicos caminham em direção à praça central da vila. Era noite. Vão trocando algumas considerações sobre o paciente que havia dado entrada nessa manhã no hospital onde ambos trabalham. Trata-se de um caso de fácil tratamento que não representaria perigo algum para qualquer pessoa. Contudo, o paciente em causa, por motivos religiosos, não pode receber o tratamento indicado para a situação. Uma questão de simples e rápida resolução transforma-se de repente e por motivos alheios à competência dos clínicos, numa situação que faz perigar a vida do doente.
Um dos médicos, mais novo, não compreendendo que possam existir razões que se coloquem à frente da salvaguarda da vida humana, debate-se com a sua consciência. O mais velho e experiente, ainda que com grande mágoa e frustração, tenta explicar que o respeito pelas leis, ainda que não se reveja nelas, deve sobrepor-se ao que individualmente consideramos correto ou incorreto.
Chegados à praça, ocupam uma mesa numa esplanada, protegida da noite sob uma arcada, continuando o debate sobre qual o valor mais alto, o imperativo de consciência ou o imperativo legal, ainda que o imperativo legal seja, no caso, uma lei de Deus, entendida com tal apenas pelos praticantes daquela religião.
Enquanto decorria esta dramática troca de ideias, a praça assistia a uma peça de teatro, sem palco, em que os atores se misturavam com os transeuntes e com alguma assistência, cativada pelo inusitado da representação que usava a ágora da vila como cenário.
Reconheceram de imediato a peça. Nesse momento duas atrizes continuavam a atuação mais junto à mesa onde se tinham sentado. Eram Antígona e Isménia que se confrontavam com a morte dos dois irmãos e com a proibição, imposta por Creonte, de dar a Polínice um enterro digno.
Antígona não concebia que não fosse dado um enterro digno a seu irmão, assumindo que ela própria sepultaria o irmão, levando as suas forças ao limite.
Isménia tenta em vão convencer a irmã a não levar por diante o que considera ser uma loucura. Amaldiçoada por Antígona, Isménia reconhece no ato da irmã a dedicação ao irmão que ama.
O clássico de Sófocles transbordava das falas das duas protagonistas com a força de uma peça sempre atual, uma peça de onde, ainda hoje, é possível retirar ensinamentos. Um clássico é isso mesmo, uma obra que vale sempre a pena ler, ou melhor, reler, uma vez que quem realmente aprecia boa literatura acaba sempre por voltar aos clássicos, como nos sugere Calvino.
No plano estético são obras cuja preocupação com a forma as elevou ao patamar da imortalidade, tornando-as em referências obrigatórias no campo da história da literatura. Para além da forma cuidada própria das civilizações Grega e Latina, é igualmente impressionante a atualidade dos seus conteúdos e a sua abrangência.
A própria forma pouco ortodoxa como a peça estava a ser encenada demonstra a intemporalidade da mesma. Uma obra com cerca de 2500 anos, que permite a um encenador tamanha liberdade criativa demonstra bem o génio encerrado nos seus escritos.
Após estes momentos em que o seu pensamento deambulou pelos milénios que a peça sobreviveu sempre atual, o jovem médico imaginou Antígona a tratar o seu paciente. A sua força seria suficiente para impor a vontade da sua consciência e salvar o doente de uma morte certa. A mesma força que a levou a sepultar o seu falecido irmão, arriscando a própria vida.
Do outro lado Isménia, certa do que é correto, mas receosa de enfrentar a ira dos que ainda que não estando corretos têm poder para impor a sua lei.
Era impressionante a semelhança entre a situação que vivia e a situação que Sófocles descrevera séculos atrás.
Muito em breve a sorte do seu doente estaria decidida. O jovem médico só esperava que não fosse em tragédia. Pensou melhor e concluiu que dificilmente não haveria tragédia. Salvasse ou não salvasse o doente a tragédia aconteceria.
O pensamento levou-o novamente para a peça que decorria. Os atores estavam agora mais longe. O local tinha ficado mais sossegado. De repente voltou a ouvir o seu colega que entretanto tinha continuado a falar durante o tempo em que todos os pensamentos tinham passado pela sua cabeça.
Já tinha lido Antígona duas ou três vezes sem nunca se ter dado verdadeiramente conta do caráter intemporal das questões que continha. A história que vivia passava-se nos dias de hoje mas de repente viu-se a imaginar quantas pessoas, no passado, olharam e se reviram nesta peça e quantas a olhariam no futuro para se reverem.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Diário de um pároco de aldeia

Robert Bresson em “Diário de um Pároco de Aldeia” conta-nos a história de um jovem padre colocado na sua primeira paróquia, a aldeia francesa de Ambricourt. Este padre padece de problemas de saúde, que lhe conferem uma fraca estabilidade física e alguma falta de equilíbrio psicológico. O seu corpo conseguia apenas aguentar pão e vinho, por vezes com um pouco de açúcar. Assistimos assim no filme a uma caminhada no alcoolismo, veneno para a completa destruição do padre.
Este filme retrata as modificações em curso na igreja: de um lado a igreja distante das pessoas, poderosa e autoritária, representada pelo padre de Torcy e a nova igreja das preocupações sociais representada pelo jovem padre.
De certa forma o jovem padre tem dificuldade em impor a sua autoridade e hesita no seu papel de líder espiritual. Perante estas hesitações a população da aldeia não o recebe bem, dificultando-lhe o trabalho e odiando-o. A sua origem pobre leva-o a entrar em disputa com os mais ricos e a questionar-lhes a aparente felicidade.
Enrolado neste turbilhão de álcool, falta de auto-estima e debilitado pela doença, o jovem padre vai começando a questionar a própria existência de Deus.
O filme encontra-se carregado de simbolismos. Para além do referido acima, da questão da “nova” e da “velha” igreja, existem muitos outros. Desde logo a alimentação do jovem padre, apenas pão e vinho, na minha opinião aludindo aos elementos proféticos das escrituras. Os vómitos de sangue e de vinho, aludindo à morte de Cristo, ao seu sangue e ao vinagre que lhe foi dado.
A juventude do padre volta a aludir ao nascimento de uma nova igreja, mais voltada para a sociedade e os seus problemas, mas de certa forma incapaz de os resolver. 
Está assim feita, em traços muito gerais, a sinopse de um filme realizado por um dos maiores realizadores franceses.
Robert Bresson é sem qualquer dúvida um “auter”. É considerado um dos maiores cineastas franceses de sempre e um dos mestres do minimalismo. Bresson, pela sua concepção renovadora do cinema, foi o mestre que abriu caminho a outros grandes nomes do cinema, muito especialmente aos da nouvelle vague.
Diz-se de Bresson que era um realizador que não fazia concessões de nenhuma ordem. Era a sua visão que sempre imperava. Exemplo disso é a sua concepção de adaptação. O filme “Diário de um Pároco de Aldeia” é de certa forma pouco fiel ao livro de Bernanos, uma vez que para atingir os mesmos objectivos, segue diferentes caminhos. Os próprios diálogos do filme não são retirados do livro.
A questão da teoria de auter é polémica. Reduzida ao absurdo, basta saber quem realizou o filme para saber se é bom e terá surgido como oposição ao cinema tradicional, especialmente o de Hollywood. Assim, dentro desta análise, podem surgir filmes maus mas que por serem de um determinado realizador conquistam um estatuto diferente.
Não será o caso deste filme de Bresson, considerado mesmo por Tarkovski o seu filme favorito.
Da mesma forma, esta teoria pode fazer com que se rejeitem realizadores sem sequer nos darmos ao trabalho de ver os seus filmes
Recordo igualmente a formação de Bresson em artes plásticas e filosofia que lhe possibilitam uma visão do cinema muito mais complexa.
Em minha opinião, a teoria de auter constitui-se mais como uma classificação do que como uma forma de interpretação. Sendo uma forma de interpretação, sem duvida que podemos considerar o filme em análise como “de auter”. A Câmara de Bresson, neste filme, captou muito mais do que imagens, realizando uma verdadeira obra de arte, na opinião de muitos, muito superior ao livro que a motivou.

Walden ou a vida nos bosques

Eduardo Lourenço refere que “(…) em nome das informações de que dispunham acerca dos costumes e práticas dos habitantes do novo mundo, os Índios, podiam entrar na categoria dos seres “naturalmente escravos”(…)”. Lourenço (2005: 31).
Partirei desta afirmação para analisar a obra de Henry David Thoreau, Walden ou a vida nos bosques. Trata-se da mais conhecida obra deste escritor e pensador que é hoje em dia considerado um dos maiores vultos da cultura norte-americana. 
Hoje é quase unanimemente aceite, à excepção de algumas posições mais radicais, que de certa forma são cultural e socialmente condenadas, que não há culturas superiores ou inferiores, havendo, isso sim, culturas diferentes. O excerto de A morte de Colombo lembra-nos que as coisas nem sempre foram assim e que tempos houve em que as culturas eram julgadas pelos seus costumes e práticas, havendo seres humanos que podiam ser considerados “naturalmente escravos”. Esta forma de pensar tem inerente uma ideia de superioridade da Europa.
O novo mundo, descoberto ou achado por Colombo, constituía uma promessa de um paraíso, de um novo começo, de certa forma a terra prometida. Contudo, o novo mundo só era novo para os europeus. As Américas eram habitadas e desenvolviam-se neste continente várias civilizações, com diferentes graus de desenvolvimento técnico mas todas elas em comunhão com a Natureza e vivendo de forma auto-suficiente.
A chegada dos europeus, com um grau de desenvolvimento técnico mais avançado, dita a subjugação dos Índios e em muitos casos tentativas de extermínio destes. A ocupação do território leva a um afastamento cada vez maior da Natureza e do modo de vida ancestral dos povos Índios. De facto, estava a ser transportado para a América o modo de vida europeu. A Europa vivia uma revolução industrial que mudava a face do continente e mudava essencialmente o modo de vida das pessoas. Registava-se um afluxo de pessoas para as cidades, para alimentar a crescente procura de mão-de-obra para a indústria e também porque no campo deixava de haver tanta necessidade de trabalhadores dado a mecanização crescente da agricultura.
Henry David Thoreau, na obra que me proponho agora a analisar, Walden, ou a vida nos bosques, dá-nos conta da sua desilusão relativamente ao estilo de vida “moderno” e da sua procura de uma vida auto-suficiente.
Thoreau encontrava-se insatisfeito com o modo de vida da sociedade. Entendia que as pessoas viviam para ter muito mais do que é realmente necessário. Referia nomeadamente em relação às habitações que “das grutas evoluímos para os tectos feitos de folhas de palmeiras, cascas e galhos de árvores (…). Por fim, desconhecemos o que é viver ao ar livre…” Thoreau (2009: 43).
Thoreau construiu uma cabana junto ao lago Walden para onde foi viver abdicando de muitos confortos, mas procurando uma vida dedicada ao essencial. O autor procurava escapar a uma sociedade que começava a ficar densamente industrializada e onde se praticava uma agricultura intensiva.
No fundo Thoreau procurava fugir aquilo que era a cultura e sociedade europeias implantadas no novo mundo. Muito cedo, falamos do séc. XIX, Thoreau assumia-se contra a sobrevalorização dos bens materiais em detrimento dos bens espirituais.
A questão da escravatura é pertinente. Nos Estados Unidos só foi decretada a libertação de todos os escravos em 1863, um ano após a morte de Thoreau. Contudo o autor, mostrava-se contra a escravatura, sendo contra o modelo europeu, que assentava o seu desenvolvimento no trabalho escravo.
Arrisco mesmo dizer que Thoreau considera que os verdadeiros escravos são os que não se conseguem libertar da necessidade de estarem rodeados de confortos e bens materiais. Nos anos sessenta do século passado assistiu-se ao movimento hippie que de certa forma estava imbuído de valores semelhantes aos que Thoreau defendeu mais de uma centena de anos antes.   
Thoreau não só não considerava que havia povos “naturalmente escravos” como entendia que o melhor modo de vida era precisamente o desses povos. Perante esta perspectiva, a descoberta da América pelos “ocidentais” não terá sido muito benéfica pois veio de certa forma destruir um modo de vida que para Thoreau era o mais indicado. 
Thoreau é uma daquelas pessoas que nascem muito à frente do seu tempo. Não só na questão da escravatura, como na questão dos valores que defendia. Na minha opinião trata-se de posições um pouco radicais que poderiam contudo servir de base para a construção de uma sociedade mais justa, permitindo um são convívio entre as pessoas e a Natureza e entre todas as pessoas.